[Resenha] O Grande Zoológico, de Howard Jacobson – Bertrand Brasil

o-grande-zoologico-2Título: O Grande Zoológico

Autor: Howard Jacobson

Editora: Bertrand Brasil

Páginas: 350

Gênero: Romance

Fonte: Cortesia da Editora

Skoob

Sinopse (Fonte: Skoob) Um romance sobre o amor pelas mulheres, pela literatura e pelo riso.

Guy Ableman é um romancista apaixonado pela mulher, Vanessa, uma ruiva deslumbrante, contraditória e assustadoramente estressada. O problema é que ele não está menos fascinado pela sedutora sogra, Poppy. Essas duas constituem uma presença potente que destrói a paz de espírito de Guy, fazendo-o imaginar histórias ao mesmo tempo que impossibilita de se concentrar tempo suficiente para escrevê-las. Não que alguém leia seus livros. Ou qualquer outra coisa. A leitura, Guy teme, acabou. Seu editor, consciente disso, suicidou-se. Seu agente anda sumido. Vanessa, por outro lado, está escrevendo o próprio romance. Guy não espera que ela termine, mas se apavora quando pensa que pode estar errado. A ficção pode estar morta, mas o desejo, não. A partir desse desejo, ele acredita que pode escrever um ótimo livro.

RESENHA

O que se passa na mente de um autor? De que material seus pensamentos são feitos e o que o impele a escrever? Que estopim gera a ânsia por escrever e faz com que o “fio da meada” seja encontrado e um grande livro, lido por todos, possa ser escrito e, tão importante quanto, publicado? Guy Ableman é o personagem criado por Jacobson para nos inserir dentro da mente borbulhante, criativa e tortuosa de um autor.

Guy é um autor bastante lido. Hoje ele está às voltas com inúmeras questões controversas e inquietantes, que passam pela tradicional dificuldade em lidar com a própria esposa, passando pela insólita paixão pela sogra e incluindo o suicídio de seu editor, que fomenta a angústia causada pelo fiasco do seu último livro. Junte-se a isso o sucesso literário de sua esposa. Enfim, as coisas não andam fáceis. E ele ainda está em busca do assunto essencial que fará com que as pessoas leiam. E para coroar, uma pergunta o angustia: Ler, ainda é um gosto que as pessoas alimentam? Livros ainda estão na “moda”?

O Grande Zoológico não é um livro fácil nem leve. Ele propõe uma narrativa complexa como que enxergássemos a mente complexa do narrador – Guy – ou Guido. Creio que as mentes criativas estejam sempre assim, em turbilhão. É desta forma que Guy se apresenta e conversa com o leitor. Conversa mesmo, o livro é redigido em primeira pessoa e o recurso da “quebra da quarta parede” é sempre utilizada. É como se estivéssemos acompanhando-o em seu dia a dia, suas questões e situações inusitadas.

O mais bacana desta narrativa é gerar no leitor questões acerca dos pensamentos mais obscuros dos autores e editores: tais como o medo de não ser lido, ou o TOC que, creio eu, todo autor tem mesmo que em níveis diferentes, seus questionamentos acerca do “nível” do seu leitor (afinal, como pode alguém não ter a menor noção de quem seja Tolsoti!?!), a obsessão acerca do tema de sua próxima obra, entre vários outros. Confesso que achei engraçado em vários pontos, e muito plausível na maioria.

Não faço ideia de como os homens lidam com tais incertezas quando não são poetas nem romancistas. Será que, sem a redenção da arte, enlouquecem?

Há na narrativa uma certa obsessão (serão obsessivos, definitivamente, os autores?) de Guy com a esposa e a sogra. Durante muitas páginas, intercalados com outros temores e anseios, Guy se desmancha em argumentos para justificar o que pensa sobre elas nos diversos acontecimentos da vida.

Existe também uma crítica nada velada aos modismos da literatura, com os livros de “famosos” de outras artes ou os de colorir. Comungo com os pensamentos de Guy nestes pontos… Além disso ele quase que endeusa a prática de escrever. Digno de reverência.

Antes de nos despedirmos ele pegou minha mão. A ponta do seu dedo médio, notei, estava gasta quase até o osso. Eu lera que ele ainda escrevia todos os seus livros a lápis, e lhe perguntei se o dedo deformado era uma consequência disso.

– De certa forma – respondeu ele. – Este é o dedo que uso para apagar.

– Nunca pensou em usar uma borracha?

Ele balançou a cabeça com veemência. Borrachas eram tecnológicas demais.

– Preciso tocar as palavras – explicou. – Mesmo as rejeitadas.

Os melhores momentos da narrativa são as discussões de Guy com Vee (sua esposa), sobre seu livro. Delicioso de se ler, inteligente e interessante. Diálogos daqueles que gostaríamos de ter com as pessoas inteligentes que nos cercam! Por outro lado, além da seriedade dos “papos cabeça” há muita sagacidade e humor neste livro. Gargalhei alto nas páginas 148 e 149. Sugiro que leia com uma bela taça de vinho para se deleitar com estas páginas.

A escrita de Jacobson é interessante, não fluída, mas inteligente e única, envolvendo o leitor de forma dramática. Impossível não ler tirando conclusões e acenando com a cabeça em sinal de concordância ou discordância. A narrativa se alterna entre ágil e dicotômica, em sequências que ele tanto afirma quanto contrapõe as ideias.

Sobre o título, ele remete ao último livro de Guy, o “Vai pentear macaco!”. Um livro que se passa num zoológico, e fala sobre (segundo o próprio Guido): amenidades, sensualidade, crueldade e indiferença. O problema é que ele escreveu-o em primeira pessoa, sob a perspectiva de uma mulher. Ele não vê o mundo com olhos femininos. Alguma chance de dar certo? Bom, as mulheres odiaram! Algumas narrativas de “Vai pentear macaco!” chegam a ser inescrupulososas. No fim tudo, tanto a busca pelo novo tema, a necessidade de acertar sua imagem com os seus ex-leitores e os detalhes sobre o livro anterior formam claramente um grande zoológico!

Enfim, recomendo a leitura. A edição da Bertrand Brasil está muito bem feita, encontrei um ou outro erro muito superficial que não interferiu na leitura. Diagramação bem feita e páginas pólen. Pode-se ler por horas sem cansar.

 

 

Avaliação da obra
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