[Resenha] Hot Sul, de Laura Restrepo – Bertrand Brasil

Hot Sul - Blog Escrev'ArteTítulo: Hot Sul

Autora: Laura Restrepo

Editora: Bertrand Brasil

Páginas: 518

Gênero: Romance, Thriller, Serial Killer, Quotidiano

Fonte: Cortesia da Editora

Skoob

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Sinopse (Fonte: Skoob) “Um retrato triste e aterrador sobre o preço dos sonhos no mundo contemporâneo e, ao mesmo tempo, uma celebração da vida com o ritmo de um thriller.” — El País María Paz é uma jovem latina que, como muitas outras, veio para a América em busca de um sonho. Ao ser acusada de matar o marido e sentenciada a passar a vida atrás das grades, ela precisa manter acesas as esperanças enquanto se esforça para provar sua inocência. Mas os perigos da penitenciária não são os únicos obstáculos em seu caminho: a liberdade pode lhe forçar a encarar um horror ainda maior que está à sua espera do outro lado das muralhas da prisão — um horror que não deixará nada impedi-lo de tomá-la para si. Poderá María Paz sobreviver a essa dupla ameaça em uma terra onde perigo e desespero estão constantemente no encalço enquanto felicidade e segurança parecem sonhos inalcançáveis?

RESENHA

Hot Sul é um livro denso e profundo acerca da vida, do quotidiano e das pessoas que estão sempre em busca de autoafirmação neste mundo cada vez mais estereotipado e egocêntrico, embora a evolução indique que deveria ser diferente. É também um livro denso e arrepiante sobre serial killers e as capacidades humanas, até onde um psicopata pode chegar e as consequências de seus atos. É denso não só pela escrita, um tanto morosa nos dois primeiros terços mas totalmente envolvente e arrepiante em todo ele, mas também pelo que trata e a forma com que trata.

Há uma crítica nada velada em suas páginas. A América do Norte, que a princípio deveria ser o local onde os sonhos se realizam, acaba sendo o local de profundo martírio, desilusão e falta de reconhecimento para as centenas de milhares de latinos que por lá desembarcam cheios de esperança. É um tanto incômodo enxergar este sentimento que, mesmo que o saibamos, nem sempre o vemos escancarado como nestas páginas. Faz uma referência interessante sobre a questão da “limpeza”, visto que a maioria dos imigrantes acabam assumindo este tipo de trabalho nas residências e empresas dos americanos. Nestas páginas a autora faz uma crítica quanto a este aspecto através de nuances de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) ligado à mania de limpeza.

Critica também veementemente o sistema carcerário quando o detento é estrangeiro. Desde a questão da comunicação em língua local obrigatória até o descaso, descuido e atitudes que beiram o crime quando se trata da saúde destes detentos. Nenhuma destas críticas soam como argumentação adicionada à história nem parece algo pedante. Tudo acontece no meio da narrativa toda e a crítica surge entrelaçada aos relatos da vida de Maria Paz, ora feitos por ela mesma em seu manuscrito, ora feitos por pessoas que o Sr. Rose interpela para saber mais sobre esta enigmática mulher, ora feitos pelas anotações de Cleve. O livro transita entre tempos muito bem, fazendo com que o quebra-cabeças seja montado na mente do leitor e ele possa ver todo o conjunto da história sob diversos ângulos e nuances.

A protagonista desta história é Maria Paz, detenta, acusada de matar seu marido. A forma com que a conhecemos é única e interessante. Ela conhece Cleve quando este vai dar aulas de Escrita Criativa no presídio. Algum tempo depois, quando as aulas já não existem e nem tampouco Cleve, o Sr. Rose, pai de Cleve recebe um manuscrito. Era Maria Paz apresentando sua autobiografia. E foi com esta autobiografia um tanto quanto “conversante” que a conhecemos. Praticamente vemos sua alma, devido aos sinais e breves comentários inseridos neste manuscrito. Nele Maria Paz desnuda a alma e posso dizer que ela se materializa na mente do leitor de forma tão bruta que quase sentimos seu hálito, como que sussurrando suas histórias em nosso ouvido.

O início da trama remete ao thriller, visto que apresenta flashes de acontecimentos que lá na frente farão sentido no conjunto da obra. Eu particularmente gosto muito destes inícios que soam um tanto fragmentados, mas que deixam janelas abertas que fazem o plano de fundo da obra. A dinamicidade ideal para começar uma obra de mais de 500 páginas!

Inclusive, o thriller está muito presente nestas páginas, afinal há assassinatos, há a investigação do Sr. Rose para conseguir que o filho lhe fale mesmo após sua morte, há toda uma trama intrincada de ciúmes, possessividade e psicopatia que vai se revelando aos poucos e chega ao seu ápice lá pela terça parte do livro. Neste ponto o livro se transforma em um thriller dos bons, depois de dezenas e dezenas de páginas apresentando este quotidiano controverso e difícil. A obra se transforma e vamos entendendo os detalhes de tudo o que foi apresentado até então e notamos que há muito mais por detrás daquilo que víamos. A balança enter o thriller e o quotidiano está espetacularmente equilibrada. O thriller faz par com a “vida real” de Maria Paz, de Cleve e de Sleepy Joe e presenteia o leitor com muito conteúdo. Autores como Laura Restrepo afirmam o nome deste blog… Escreve com arte, sem dúvida!

Em suma, posso dizer que Hot Sul é um livro composto por vários livros, várias histórias, todas elas visceralmente interligadas. O leitor deve ler com calma e atenção as trezentas páginas iniciais, para poder saborear com toda intensidade tudo o que acontece nas duzentas páginas seguintes. Tudo faz sentido, tudo é interligado, tudo contribui para que o leitor se deleite com tamanha capacidade criativa da autora. É um livro espetacular.

Em se tratando de edição, a Bertrand Brasil segue sua tradição, com uma obra séria, bem feita, cuidadosa. Páginas em papel Pólen, margens e fonte adequadas para longas leituras, tradução e revisão cuidadosas. Faz jus à qualidade da trama. Enfim, recomendo fortemente a leitura de Hot Sul!

Sobre a autora:

Laura Restrepo - Blog Escrev'ArteNasceu em Bogotá, Colômbia, em 1950. Formou-se em letras e filosofia pela Universidad de los Andes. Seu primeiro livro, História de um entusiasmo, veio a público em 1986. Escritora reconhecida internacionalmente, traduzida em mais de doze idiomas, foi agraciada com o Prix France Culture (França) e o Prêmio Sor Juana Inês de la Cruz (México) pelo romance Dulce compañia. (Fonte)

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