[+ Cultura] Feminismo

Nesta semana começou o mês de Março, o mês da mulher. O mês que para alguns é como um outro qualquer, mas para nós mulheres que lutamos diariamente pelos direitos igualitários, pelo fim da violência física e verbal, do abuso, da indiferença e do preconceito, março é um mês significativo. É tempo de repensar, refletir e agir.

O Dia Internacional da Mulher, celebrado no próximo dia 8, é tão importante quanto várias outras datas sobre o tema, como 25 de novembro – Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher. Hoje vivemos uma geração em que é possível se expressar sem (muita) repressão. Devemos aproveitar as ferramentas disponíveis para mostrar a força e indignação que as mulheres vivem.

Feminismo

Em 2015 as redes sociais foram tomadas pela campanha “Meu Amigo Secreto”, onde com hashtag #meuamigosecreto muitas mulheres compartilharam discursos de machismo e abuso sexual que são diariamente vividos nos círculos sociais.

A atitude foi inspirada na campanha Meu Primeiro Assédio, idealizada após um caso extremo de pedofilia nas redes sociais quando a garota Valentina Schulz de 12 anos, participante do MasterChef Junior Brasil transmitido pela Band, foi alvo de comentários violentos e abusivos.

Este episódio trouxe indignação a muitas mulheres e Juliana de Faria, criadora do blog Think Olga e da campanha Chega de Fiu Fiu, iniciou uma mobilização virtual e a #meuprimeiroassedio ganhou mais de 80 mil posts. Algumas famosas como Letícia Sabatella e Juliana Paes também aderiram ao movimento e compartilharam depoimentos de assédio sexual que sofreram quando crianças.

A maior página feminista não-paga do Facebook chamada “Moça, você é machista”, com mais de 530 mil curtidas, é criação de uma poços-caldense. A pedagoga Andrea Benetti, mestranda em Discurso na Educação de Gênero em Adolescentes e militante do Coletivo Feminista Jaçanã Musa dos Santos, idealizou a página com outros dois amigos com o intuito de mostrar que o discurso machista também existe na voz das mulheres. “Percebemos em outras páginas feministas do Facebook que muitos comentários machistas vinham das mulheres, e como pesquisadores na área achamos que seria interessante mostrar este lado existe e que é importante repensar”, comenta Andrea. Hoje a página trata não somente da crítica ao discurso sexista, mas também luta contra o racismo, homofobia e as formas de preconceito que geram violência física e verbal.

Muitos outros casos de intolerância ganharam as redes sociais recentemente, como as críticas feitas a jornalista Maria Julia Coutinho, do Jornal Nacional, e a atriz Thais Araújo. Ambas foram alvo de comentários preconceituosos e racistas. Em contrapartida, militantes feministas abraçaram a causa e criaram campanhas virtuais contra o preconceito racial, como a #SomoTodosMaju. A ONG Criola utilizou destes comentários racistas feitos no Facebook e Twitter para criar outdoors nas cidades dos acusadores como forma de conscientização pelo slogan “Racismo Virtual. As conseqüências são reais.”

Já em agosto passado a apresentadora Bela Gil, do canal GNT, fez um alerta a violência doméstica em forma de enigma. Ela publicou uma frase no Facebook que parecia não ter sentido, e era essa a intenção da campanha “Curiosidade salva”, que também contou com a participação das atrizes Deborah Secco, Preta Gil e Marjorie Estiano.
É possível perceber que as redes sociais tem dado voz ao povo, seja para ofender ou defender, mas que cria a oportunidade de disseminar melhor as ideologias, atrair o interesse dos jovens, formar opiniões e informar. Estes recursos são vistos de maneira positiva pela pedagoga Andrea. “Na minha época as meninas não tinham noção do que era o feminismo. Hoje vejo minhas alunas de 14 e 15 anos com discursos totalmente feministas, reacionários. Em comparação com a minha geração, vejo um avanço de 50% no mínimo neste comportamento”, explica.

Em 2015 o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) trouxe a violência contra a mulher na sociedade brasileira como tema da redação, que usou como base os estudos da socióloga francesa Simone de Beauvoir. Esta escolha foi vista positivamente pelos especialistas, pois foi uma forma de obrigar 7 milhões de estudantes a discutir sobre o tema, levando em consideração a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, aprovada em março deste ano.

A professora Maria Aparecida Custódio, do laboratório de redação do Curso e Colégio Objetivo, afirmou em entrevista ao G1 que “é possível comparar o ENEM a um fórum de debates sobre direitos e deveres do cidadão. Esta foi uma escolha muito feliz do tema porque ainda não conseguimos vencer essa chaga tão horrorosa. A aplicação da lei ainda não se efetivou”.

De diversas formas a discussão sobre a violência contra a mulher, os direitos igualitários e a luta feminista estão aos poucos ganhando espaço na mídia, principalmente após a grande repercussão do ENEM e as campanhas virtuais criadas pelas blogueiras. Ainda assim, o assunto necessita de maior abrangência, uma vez que nas 130 Delegacias da Mulher do Estado de São Paulo foi registrado pelo menos um caso de estupro de janeiro e setembro deste ano – o número é assustador!

Andréa Benetti explica que estes dados fazem parte da cultura do Brasil. “Devido a colonização europeia temos uma visão tradicionalista de família ocidental onde o sujeito de referência é de sexo masculino, heterossexual, branco e de classe média. Portanto, todos a margem dele são problematizados, como mulheres, negros e homossexuais.”

Enquanto nas redes sociais por um lado muitos se mobilizam com a causa, outros julgam que a luta das mulheres é desnecessária. “Esta visão só irá mudar com a insistência. Dependemos do trabalho nas escolas, na educação dos jovens, das políticas públicas a nosso favor. O avanço te que visar a multiplicidade, pois enquanto um indivíduo entender o outro como anormalidade e excepcionalidade, será cada vez mais difícil caminhar”, finaliza a pedagoga.
Trago portanto a questão: até quando a maioria da população brasileira vai achar normal os índices de estupro? Até quando discursos feministas serão tratados como ‘mimimi’? Até quando nossos salários serão mais baixos que dos homens? Até quando uma mulher será tratada como objeto sexual?

Neste 8 de março, faça diferente. Não dê rosas vermelhas, não cumprimente as mulheres a sua volta com um simples ‘Parabéns’, não faça textos longos no Facebook elogiando sua mãe, irmã e namorada, não finja interesse. Nós queremos o diferente, queremos respeito, igualdade. De nada adianta atitudes forçadas em um dia do ano sendo que nos outros a realidade é oposta.

Neste 8 de março, trate uma mulher com o respeito digno que merece. E faça isso durante os outros 365 dias do ano, como se todos os dias fossem 8 de março.

~Reflita~

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